Esperei ansiosa pela estreia da série Watchmen, gostei muito do filme e desde que anunciaram a série, exibida pela HBO, fiquei animada para assistir. No lançamento, super empolgada, corri para comaçar o primeiro episódio e, para minha surpresa, a série inicia com acontecimentos que inicialmente pensei serem fictícios, já que nunca tinha lido uma única menção sobre. Mas só pra garantir, pesquisei... Tulsa 1921. E aí a série deixou de ser só mais uma série, porque ali estava sendo tratado um assunto tabu para a comunidade estadunidense. Vamos tentar entender mais...
A CIDADE
No início do século XX, Tulsa era uma cidade proeminente do estado de Oklahoma, nos Estados Unidos. Como era comum em tempos de segregação racial, a cidade era cortada por trilhos de trem, separando a parte norte (branca) e a parte sul (negra). Ao sul, no bairro de Greenwood a movimentação era intensa, cinemas, bares, jornais, discotecas. Com a descoberta de um reservatório de petróleo, Tulsa se expandia economicamente e os 40 quarteirões do distrito de Greenwood ficaram conhecidos como Black Wall Street. Ali moravam A.C. Jackson, considerado o melhor cirurgião negro do país, e Simon Berry um piloto que tinha seu próprio avião e era proprietário de um serviço de transportes.
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| Desfile no distrito Greenwood Apesar da prosperidade, Tulsa era assombrada pela alta taxa de criminalidade e frequentes linchamentos. A segregação racial separava restaurantes, banheiros, bebedouros, assentos de ônibus e todo bem de uso público, enquanto brancos tinham acesso a diversas opções de restaurante no centro da cidade, negros poderiam fazer suas refeições em alguns poucos. Para se ter ideia, o único banheiro permitido para negros fora de Greenwood ficava em um hotel no centro da cidade. (Guarde essa informação) Essas leis de segregação eram tão rígidas que uma família de grupo “x” não poderia morar em um bairro em que três quartos dos moradores fossem de etnia “y”, o que acabava reforçando a ausência de bairros mistos. É interessante notar que a segunda onda da Klu Klux Klan acontece a partir de 1915 e até o final de 1921, Tulsa teria cerca de 3200 moradores ligados à Klan. CONTEXTO 1919 foi um ano problemático. Os Estados Unidos é um país com forte histórico de perseguição aos negros e o fortalecimento dessa comunidade através do país gerou preocupação entre os supremacistas. Com o final da I Guerra Mundial, retornam soldados mais experientes em batalha, alguns com medalhas e certo reconhecimento, o que a série também representa. Com o retorno de todos esses homens, os gastos de guerra, há uma crise de empregos; a KKK em seu auge estende sua sombra por várias regiões com um discurso nacionalista, prometendo lutar para recuperar a glória do país através da valorização do “verdadeiro” cidadão estadunidense. Muitos desses soldados elevaram a moral de suas comunidades com o sentimento de patriotismo e pertencimento. Outro ponto: linchamentos eram prática comum; de 1908 a 1921 a cidade registrou 30 linchamentos, 26 desses eram homens negros. O chamado “Verão Vermelho” de 1919, quando diversos massacres raciais aconteceram ao redor do país, é mais uma das inúmeras manchas na história dos Estados Unidos. CAUSA INICIAL
É difícil precisar o que aconteceu no dia 30 de maio de 1921, pode ter sido um tropeço, um pisão no pé, mas quando o jovem engraxate Dick Rowland (19 anos) precisou ir ao banheiro, ao entrar no elevador, quem estava de fora ouviu um grito feminino, vindo da ascensorista Sarah Page, uma jovem branca (17 anos). O prédio Drexel Building tinha o único banheiro permitido para negros no centro da cidade, Page era acostumada a lidar com o público que visitava o lugar. O historiador Scott Elsword diz que uma das explicações é que Rowland teria pisado no pé da moça ao entrar no elevador. Sarah Page não foi questionada, não há nenhum relato escrito, e nos dias subsequentes ela avisou à polícia que não faria nenhuma queixa. À noite, a polícia, que detivera Dick Rowland, ficou em alerta. O xerife posicionou homens armados, desativou elevadores e tentou conversar com a multidão de homens brancos que se formara próximo ao tribunal do condado. Foi vaiado. Por volta das 8:00 da noite três homens brancos entraram no tribunal exigindo a entrega de Rowland, mas o xerife Willard M. McCullough mandou os homens embora. Quando souberam sobre o possível linchamento, homens de Greenwood se organizaram com armas para proteger o jovem, um representante da comunidade seguiu para conversar com o xerife, que prometeu que ninguém seria linchado aquela noite. Mas quando a multidão branca começou a se exaltar, os homens de Greenwood foram para o local mostrar sua força, o que foi interpretado como um “levante negro”. E é ali que o conflito começa a tomar forma. Ambos os grupos estavam armados, mas um homem branco exige que um homem negro largue sua arma; um tiro é disparado, acredita-se que tenha sido por acidente, mas foi o suficiente para a primeira troca de tiros até que os grupos se dispersaram.
Frustrados por não efetivarem o linchamento, brancos armados começaram a atacar aleatoriamente atirando contra pessoas e casas. Os moradores que retornaram para Greenwood ainda foram perseguidos por homens que atiravam e saqueavam lojas por munição. Pessoas inocentes, algumas saindo de um cinema, foram surpreendidas e tentaram fugir, a correria alimentou o pânico. ![]() Williams Dreamland Theatre antes e depois do massacre.
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Muito bem explicado! Gostei!
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